Opinião

Surgimento da resistência líbia

segunda-feira 5 de Novembro de 2012

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Título: Surgimento da resistência líbia.

Autor: Atul Aneja.

Linguagem: Inglês.

Fonte: "Other News".

Temática: Líbia e o assassinato do embaixador norte-americano.

Apesar de os Estados Unidos negarem, há motivos para pensar que os assassinos do embaixador Stevens pertenciam ao Tahloob, um movimento de seguidores leais de Kadhafi.

Os assessores políticos nos Estados Unidos não conseguem explicar direito o ataque de 11 de setembro em Bengazi que provocou a morte do embaixador John Christopher Stevens. Ninguém foi capaz de contar a tragédia de maneira convincente e lógica, nem políticos, nem gurus de relações públicas, nem os meios de comunicação. A bruma cobre o assassinato desde a campanha eleitoral presidencial norte-americana marcada para seis de novembro. No fervor da batalha eleitoral, onde se pagam somas estratosféricas para criar percepções em lugar de fixar os fatos, nem o campo republicano de Mitt Romney, nem as legiões que apóiam Barack Obama parecem interessados em enfrentar a verdade até a emissão de todos os votos e selada a última urna eleitoral.

Falha da inteligência

O debate que precede as eleições se baseia não só em quem matou o embaixador e como, mas também no contexto em que foi assassinado. Os Republicanos – bem longe da cadeira presidencial - dizem que o embaixador foi vítima de um ataque planejado por Al Qaeda, portanto, o assassinato foi o resultado de um grande fiasco de inteligência, ou uma imperdoável negligência administrativa que impediu as autoridades prestarem atenção a todas as alertas surgidas em relação à possibilidade de um ataque em Bengazi, ou em qualquer outro lugar.

Obama admitiu que o embaixador Stevens fosse vítima de um “ato terrorista”. Nos meios de difusão foram publicados artigos que citam fontes não identificadas de oficiais de inteligência, segundo os quais os que atacaram as vilas ocupadas pelo embaixador e seu pessoal tinham montado um ataque “oportunista”, aproveitando-se dos protestos organizados em Bengazi contra o filme que zombava do Profeta Maomé. A teoria de um ataque “oportunista” prejudica menos o atual governo, isenta o presidente Obama e sua equipe de qualquer culpa por não terem tomado providências, isto porque prova que o ataque não fora planejado, por tanto, era difícil evitá-lo.

Contudo, nenhuma das duas versões oferecidas ao eleitorado norte-americano passa o exame de um cuidadoso escrutínio. A versão dos Republicanos de que Al Qaeda foi o cérebro do ataque não pode ser admitida por seu valor nominal. Há bastante material que prova que os grupos de JIHAD ligados ideologicamente à Al Qaeda estavam – com o apoio da OTAN e dos Estados Unidos – na primeira linha da campanha militar para derrubar Muammar Kadhafi, o ex-líder líbio. O embaixador Stevens, que tinha chegado a Bengazi em abril de 2011 a bordo de um cargueiro grego, acabou sendo o organizador do linchamento que articulava as relações da administração com os grupos islâmicos armados.

Todos sabiam das relações do embaixador com os combatentes islâmicos. Trocou sua base de operações de um hotel de Trípoli após sair ileso de uma tentativa de assassinato a uma vila mais segura em Bengazi, o QG dos jihadistas. Confiava tanto na sua segurança que praticava jogging pelas ruas de Bengazi junto com grupos de Jihad, muitos deles ligados estreitamente aos Mujahideen afegãos e à Al Qaeda.

“Oportunista”

A versão do ataque oportunista dos seguidores de Obama diz que os atacantes se misturaram com os manifestantes de um protesto organizado contra o filme blasfemo e executaram a ação quando viram que havia possibilidade de serem bem-sucedidos. Essa história também está cheia de buracos. Supostamente o protesto ocorria em frente às portas do complexo de vilas em Bengazi e os atacantes contavam com a cortina de fumaça através da qual podiam se infiltrar. Porém, os relatos de testemunhas oculares sugerem que não havia nenhum grupo de manifestantes nos arredores das vilas naquela noite fatídica de 11 de setembro.

O serviço de notícias de McClatchy cita testemunhas oculares que foram entrevistadas em 13 de setembro e que declararam: “Os norte-americanos teriam ido embora se tivessem visto manifestantes, mas lá não havia nem uma mosca. A zona estava completamente tranqüila até as 21.35h, quando um grupo de 125 homens lançou ataque com metralhadoras, granadas, RPG, e armas antiaéreas; jogaram granadas contra as vilas; eu fui ferido e desmaiei. Depois, entraram pelo portão principal das instalações e começaram a revistar vila por vila”.

Em artigo publicado na página Web globalresearch.ca, os pesquisadores Mark Robertson e Finian Cunningham identificaram a testemunha ocular como um jovem de 27 anos, um dos oito líbios da equipe de segurança do embaixador Stevens e de seu staff. Ele recebeu vários ferimentos por estilhaços de granada numa perna e duas feridas de bala na outra, durante o ataque. Se o que ele conta for verdade, então a versão do “ataque oportunista” deverá ser descartada, simplesmente porque não havia uma multidão que cobrisse a entrada dos assaltantes nas vilas para montar o ataque.

Obcecados com a imagem de uma Líbia livre e democrática emergindo depois de 40 anos de “tirania” de Khadafi, parece que ninguém dentro do establishment norte-americano e da OTAN se sente inclinado a dizer a verdade – que na Líbia está florescendo o movimento de resistência verde dos simpatizantes de Khadafi e ataca sistematicamente os adversários do deposto líder -. O assassinato do embaixador foi apenas a mais recente ação da campanha agressiva e eficaz do movimento “Tahloob” na gíria local. Não ocupa manchetes nos meios de difusão, porém Tahloob já perpetrou um rosário de ataques que englobam assassinatos, especialmente dos traidores de Khadafi.

Entre as vítimas está Shukri Ghanem, outrora bem conhecido ministro do Petróleo, cujo corpo apareceu flutuando no Danúbio, em 29 de abril. Em claro ato de traição, Ghanem virou a casaca, se aliou à OTAN e se entregou à boa vida, primeiro em Londres, mais tarde em Viena. Menos de um mês depois da morte de Ghanem, o movimento admitiu ter assassinado o general Albarrani Shkal. O ex-governador militar de Tripoli tinha sido acusado de desmobilizar 38.000 soldados sob seu comando. Esta ação abriu as portas para a entrada das tropas estrangeiras em Tripoli, cujo resultado foi o ”êxito” da Operação Alba da Sereia que culminou com o saque da capital líbia. Outro renomado desertor, o Comandante das Forças Especiais, Abdel-Fattah Younis também foi assassinado, bem como um juiz que investigava o assassinato de Younis, em junho deste ano.

O assassinato do embaixador Stevens marca uma escalada na campanha do movimento verde. O motivo resulta óbvio, devido ao papel que Washington desempenhou e a contribuição do embaixador para a deposição de Khadafi.

Houve outros fatores que talvez tenham contribuído para o momento específico do ataque. Seis dias antes do ataque contra Bengazi, a Mauritânia tinha extraditado à Líbia Abdullah Al Senoussi, importante chefe da inteligência de Khadafi. Isto provocou a ira de Tahloob. Senoussi tinha cometido o erro de escolher como refúgio Nouakchott, a capital da Mauritânia, onde foi rapidamente detido, à sua chegada em 17 de março. Ao ser preso, a Mauritânia era aliada firme do campo ocidental.

Embora o movimento verde não tivesse se atribuído nenhuma ação, surpreenderia se não fosse incluído na lista dos suspeitos da tentativa de assassinato do presidente mauritano Mohamed Ould Abdel Aziz, em 13 de outubro. Para consumo público, acusa-se Al Qaeda do ataque, porém a versão oficial é que o presidente foi levemente ferido “em fogo amigo” entre suas próprias tropas.

Há outro motivo que pode ter levado o movimento verde a escolher Stevens como alvo. Um dia antes do ataque em Benghazi, dois fiéis seguidores de Khadafi – Abdul Ati Al Obeidi, um ex-primeiro-ministro, ministro das Relações Exteriores e Chefe de Estado e Mohammed Zwai, ex-chefe da legislatura, tinha sido comparecido perante os tribunais. Ambos foram indiciados de saquear o erário público ao pagar compensação da ordem dos US$ 2,7 bilhões às vítimas do ataque ao vôo 103 da Panam sobre Lockerbie, Escócia.

Um conflito amargo

No período posterior a morte do embaixador Stevens, um novo capítulo de conflito amargo parece ter começado entre os simpatizantes de Khadafi da resistência verde e as milícias que contam com o apoio da OTAN e assumiram o poder em um Estado líbio cada vez mais fragmentado. Bani Walid, a cidade que continua fiel a Khadafi - a última em sucumbir no ano passado – foi atacada e o povo da tribo Warfala, fiel a Khadafi, que vive na cidade, foi alvo de castigo coletivo. Corre o rumor que Khamis, o filho menor de Khadafi, foi assassinado e que Moussa Ibrahim, o outrora porta-voz de Khadafi, tinha sido capturado. A resistência de Bani Walid sob a direção do movimento verde demonstra que o ano 2013 dificilmente poderá esquivar o efeito do ataque à Líbia, seja quem for o inquilino da Casa Branca; muitos rejeitam a mudança de regime orquestrada sob o engano genérico denominado Primavera Árabe.

* Correspondente para Ásia Ocidental do jornal “The Hindu”, baseado em Dubai.

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