Ameaças a uma ativista contra o tráfico de pessoas

terça-feira 4 de Junho de 2013

Todas as versões deste artigo : [Español] [Português]

Autora: Gabriela Esquivada.

Editora e Canal: Plataforma Interamericana de Direitos Humanos Democracia e Desenvolvimento (PIDHDD).

Tipo de documento: Artigo.

Língua: Espanhol.

Assunto: Tráfico de mulheres.

As palavras-chave: Conflitos sociais, Crime organizado, Defensores dos direitos humanos, Direitos das mulheres, Exploração sexual, Mulheres, Prostituição.

Países e Regiões: Argentina.

Às onze da noite de domingo, 19 de maio, Sonia Sánchez saía de um auditório, onde tinha dado uma conferência sobre a prostituição, o tráfico, os proxenetas, a cumplicidade do Estado e a violência contra a mulher. Esta mulher de 48 anos, traficada aos 17, que publicou –com María Galindo– o livro “Nenhuma mulher nasce para puta” é uma ativista contra um negócio baseado na exploração degradante das pessoas, mulheres a maioria. Na esquina desolada de Rojas e Rivadavia, fez sinal ao primeiro taxi que tinha avistado. Ao subir, Sánchez acabou vivendo um pesadelo de quase duas horas de duração.

–Você sabe quem sou eu? – perguntou o homem, cujo aspecto físico não se correspondia – observou a mulher – com um trabalho sedentário, como dirigir horas e horas a fio. –Não, não o conheço. – Então você não me conhece… – Não, desculpe. –Vamos, chaquenha…

“ Começou a me proporcionar informações da minha vida, a misturar o meu passado com o meu presente”, detalhou a Miradas al Sur. “Coisas que não aparecem na internet, nem no meu livro. Descreveu uma foto quando era menina, a única que tinha porque era pobre; também fotos quando a Delegacia 50 me levava presa com outras putas; sabia o nome do meu filho e outra informação que só sabiam os mais íntimos, como os horários de entrada e saída da minha casa. Descreveu a roupa que vestia quatro dias antes, enquanto esperava o 86.”

Ao mencionar a esquina, onde parava Sánchez trinta anos antes, ela pensou que ele talvez fosse um proxeneta ou um prostituinte, e lhe disse: – Não trabalho mais. –Sabemos disso – respondeu o homem. Ela sentiu calafrio. Estava claro que o motorista não pertencia ao grêmio dos taxis. “Fui bloqueada emocionalmente”.

O sujeito começou a ziguezaguear, entrava numa rua, dobrava a esquina, e a outra… Eu estava petrificada. Porém, em algum momento, consegui me recuperar e tentei abrir a porta; ele brecou de súbito, cai para frente. “Ele se virou, e pegou as minhas pernas com aquela mão enorme”. Sánchez teve medo de que a espancasse. Mas o homem só disse: – Olhe bem para mim: onde te vejo, te paro. Sánchez desceu e correu em direção contrária ao tráfego.

Ao ter sido a enésima intimidação – as duas anteriores incluíram ameaças com armas de fogo -, Sonia Sánchez decidiu denunciar o caso na Unidade Fiscal de Assistência em Seqüestros Extorsivos e Tráfico de Pessoas (Ufase) sendo ela recebida pelo titular da promotoria, Marcelo Colombo. Ele se interessou no assunto e o relacionou com episódios anteriores. A atividade de denúncia e educação que realiza Sánchez faz parte do Capítulo Argentino da Plataforma Interamericana de Direitos Humanos, Democracia e Desenvolvimento (Pidhdd), que “articula as organizações sociais e as instituições da sociedade civil, promove a vigência dos direitos humanos e trabalha pela construção de sociedades nas quais a economia, a cultura e a política estejam ao serviço da dignidade humana, a igualdade, o respeito, a diversidade e o meio ambiente”, segundo definiu a assembléia da organização, em 2008. “Dedico-me a capacitar a polícia em direitos humanos no Sul, porque a rota do tráfico de pessoas é rumo a Neuquén para baixo. Río Gallegos é a Meca da exploração sexual: há dois quarteirões inteiros de prostíbulos. Onde houver mineração, onde houver petróleo, haverá exploração sexual.

As chamadas casas de tolerância são prostíbulos admitidos pelo Estado municipal, conhecidos pelo nome de uísquerias, onde moram as mulheres e são prostituídas nos quartos do fundo. Ela conheceu essa experiência na própria pele. “Migrei do Chaco, em busca de trabalho”, explicou, “estava farta da pobreza, de comer a cada três dias. Primeiro, fui explorada no trabalho: um dia li no jornal que outras empregadas, que tinham cama dentro, ganhavam mais do que eu, pedi aumento, e me mandaram para o olho da rua. Dormi na Praça Once durante cinco meses. Tinha 17 anos e fui prostituída e, mais tarde, traficada para o prostíbulo VIP de Río Gallegos por um proxeneta a quem só consegui ver atrás das grades faz um mês, lá mesmo: o apelido do cara era Tarantini; seu verdadeiro nome é Álvaro Santos e é o proprietário da boate Las Vegas em El Calafate, entre outros lugares similares; é milionário, mas tem tudo terceirizado”.

No Sul, ela foi ameaçada com arma. Após ter dado uma palestra no auditório universitário de Comodoro Rivadavia, sentou-se num bar para comer alguma coisa. Era 13.30h. Um homem se aproximou de sua mesa, mostrou-lhe um revólver, e advertiu: “Não continue fodendo com o tráfico e os direitos humanos”. Pouco antes, tinha escrito uma carta de denúncia de um projeto legislativo municipal que recomendava regulamentar a prostituição para promover o turismo nessa cidade; três dias depois sua conta de correio foi invadida e perdeu todos os materiais que guardava lá, mais sua relação de contatos. Em 2007, no lançamento do seu livro, teve de mandar seu filho a uma província e ela saiu do país por alguns meses. “Os fiolos e as fiolas do bairro de Flores me apertaram com armas, através do meu companheiro: “Que não se meta com as putas”, lhe disseram”.

Para Sánchez, o Estado é que deve resgatar as mulheres, portanto, centrou sua prática na prevenção. “Vou às escolas primárias e secundárias a dar palestras para que as adolescentes de hoje não sejam as putas do futuro e os varões não se convertam em proxenetas”, contou. “Explico-lhes o que a prostituição, o que é o tráfico, o que é um proxeneta, o que é um fiolo, ou uma fiola, o que é uma puta, como o Estado prepara-as, como começar a desarmar a cultural da prostituição e a linguagem fiola que maquia e encobre a violência; falo do exercício pleno dos direitos econômicos, sociais e culturais” Porque aí está o eixo, segundo ela. “As mulheres resgatadas no sul acabam sendo de novo putas nas suas províncias do norte, porque nem o governo de onde a vítima é oriunda, nem o nacional lhes devolvem o exercício total desses direitos. A algumas lhes dão um plano social, porém isso não é um direito econômico, social ou cultural. Não podem sair do sistema de prostituição porque um plano social não é um emprego”.

A prostituição também não: basta pensar que não existe a maneira de achar o aspecto dignificante da pessoa. “Quando você parar numa esquina ou for colocada num bordel, sua identidade fica no passado”, definiu. Por isso, ela se separou do grupo da Associação de Mulheres Meretrizes da Argentina (Ammar) que se criou na CTA, isto porque partia do conceito de que uma prostituta era uma trabalhadora sexual. “Ah, é? E vamos ter férias, décimo terceiro salário e aposentadoria?”, se perguntou, enquanto pensava na definição do que ela fazia. Formou seu grupo, Ammar-Capital, que chamou o cliente de “prostituinte”; o trabalho sexual, “violação”; os espaços como a esquina ou bordel, “campos de concentração a céu aberto”.

Hoje insiste aos adolescentes: “A prostituição não é um trabalho, é a violação dos direitos econômicos, sociais, culturais e humanos. O primeiro que devia reconhecer-se como proxeneta é o Estado: vulnera os meus direitos – no meu caso, deixando-me com fome– para que outros abusem da minha vulnerabilidade. E lhes explicou o que a prostituição produz numa mulher: destrói a nossa identidade de sujeito de direito, nos transforma em objeto de uso e abuso. Igualmente, lhes explicou que não se escolhe livremente ser puta, como se escolhe ser jornalista ou advogada; há uma escolha coagida, aí não é escolha”.

Sánchez não consegue esquecer as palavras do suposto taxista: “Onde te vejo, te paro”. Não sabe como interpretá-las. Mas, isso não tem importância. A Ufase investiga sua denúncia e ela tem certeza da vida que quer: “Vou continuar denunciando publicamente o tráfico e a prostituição”. A exploração sexual ao dobrar da esquina.

O panfleto que a mulher entregava, mostrava o Mapa do Crime Organizado no bairro portenho de Recoleta e um resumo das conquistas da Assembléia Recoleta Insegura: “Destituição do comissário (Claudio) Lucione da Delegacia 17º, por estar ligado a delitos”; “Fechamento administrativo dos narco-bordéis Madaho’s, Black, Brut e Plays, onde provamos que havia tráfico de menores”; “Afastamento do titular dos inspetores portenhos, Rafael Roldán, depois da entrega de uma lista de 126 prostíbulos dos chamados Privados”. Este segundo mapa foi feito, como o anterior, em parceria com a fundação La Alameda, que já tinha feito o mesmo em Monserrat, onde acharam prostíbulos ao redor do Departamento Central da Polícia Federal e Constitución. “Trabalhamos com os moradores, para que entendam que a mãe da insegurança não é a ausência do Estado e sim sua presença mafiosa”, disse Lucas Schaerer, dessa ONG, a Miradas al Sur. “Agora é a vez de Recoleta, por ser o líder do sistema narco-cafetão instalado em Buenos Aires”. Segundo La Alameda, existem na Cidade ao redor de mil espaços de exploração sexual, habilitados em categorias como Boliche Classe C (danceterias, embora não haja pista para dançar) ou Loja de Brinquedos, como a que funciona no subsolo perto da Comuna 2. Faz um ano que trabalham junto com a assembléia de moradores.

Após a apresentação do mapa, Recoleta Insegura, o presbítero Julio Torres (vigário do Patrocínio de San José, a igreja de Ayacucho e Santa Fé, onde volta e meia se reúne a assembléia) e membros da ONG participaram de um esculacho aos prostíbulos identificados. Colaram uma faixa de fechamento simbólico: “Fechado. Violação da Lei de Profilaxia 12.331”.

La Alameda enlaça três fatos pelos quais se chegou a esta atuação pública. Em fevereiro de 2012, colocaram uma câmera oculta em Madaho’s, “donde comprovamos proxenetismo e venda de cocaína, portanto, entramos com ação na justiça contra este e outros sete narco- bordéis”. Pouco depois, Lorena Martins - filha de Raúl Martins, o dono de Brut e de outros locais similares - acusou o seu pai - ex-membro da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE)– de ser tratante e explorador sexual em conluio com as autoridades municipais; difundiu a foto de um sócio do seu pai, Gabriel Conde, junto ao chefe de Governo Mauricio Macri e sua mulher. Por último, Karina Ramos, explorada em Madaho’s e Black, denunciou seu caso perante a Justiça, depois disso foi vítima de pressões, extorsões e ameaças. “Porém, nem a câmera oculta, nem a denúncia da filha do czar do proxenetismo na Argentina, nem o depoimento de uma vítima, conseguem romper a impunidade da máfia, afirmou Schaerer. “Por isso, o esculacho”.

Até agora conseguiram que Lucione fosse afastado da Delegacia 17, embora não fosse enxotado da força, acusado de enriquecimento ilícito; denunciaram mais de 40 narco- bordéis, que provocaram 60 ordens de registro da juiza María Servini de Cubría; desmascararam o chefe de inspetores portenho Roldán, que tinha conhecimento da existência de uns cem locais, o que levou a que fosse substituído por Juan José Gómez Centurión e encaminharam à Legislatura um projeto de lei para que todos os lugares de exploração sexual fossem fechados.

Tejiendo Redes.
C/ Hermanos García Noblejas, 41, 8º. 28037 - MADRID.
Tlf: 91 4084112 Fax: 91 408 70 47. Email: comunicacion@fidc.gloobal.net

SPIP |