As crianças encapuzadas do Chile

terça-feira 28 de Maio de 2013

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Autor: Tito Tricot

Editora e Canal: Agência Latino-Americana de Informação (ALAI)

Tipo de documento: Artigo

Língua: Espanhol

Assunto: Violência de Estado

As palavras-chave: Conflitos sociais, Direitos civis e políticos, Direitos humanos, Detenção arbitrária, Igualdade social, Justiça Social, Meninos e Meninas.

País: Chile

Fazia tanto frio naquela brumosa madrugada de inverno que todas as crianças do Chile colocaram capuzes. Iam para a escola, com as mãozinhas geladas, levando nos olhos semicerrados o sono desbordante. A geada desenhava nos seus sapatos pequenas estalactites que pareciam brilhar no meio da névoa. E caminhavam os meninos e as meninas do Chile, num silêncio misterioso, como fazem quando vão ao colégio naquelas manhãs gélidas. Tiritando, sérios iam, sem entender a obrigação de levantar tão cedo, todos os dias. Seu desconcerto foi maior quando, agachadas numa esquina, acharam que tinham visto algumas sombras, escuras como a mais escura das noites de chuva. Sombras espessas de veludo, que olhavam para elas das profundidades de quem sabe onde.

A turbação foi tamanha que olharam acima do ombro, acreditaram sentir o fedor da morte soprando nas suas nucas, embora nada soubessem de mortes. Afundaram seus pequenos rostos nos capuzes para se protegeram ainda mais do frio, mas, principalmente, daquelas sombras que não conseguiam decifrar. De repente, os policiais, armados até os dentes, assaltaram as paradas, subiram nos micros para prender os meninos e as meninas do Chile pelo delito de usarem capuzes. E as crianças arrancadas da névoa, e as mães chorando entre forcejos e pancadas, e os país arfantes no seu desgosto. Os carros com jatos d’águas cercaram os ônibus escolares, os policiais lançaram bombas de gás lacrimogêneo no interior dos veículos e nos jardins de infância e nos colégios. As crianças choravam sem entender o que estava se passando enquanto eram levadas a golpes a lugares desconhecidos.

Pensaram que era um sonho, que acabariam sendo acordadas para ir ao colégio, mas alguma coisa era diferente de outros sonhos, de outras tantas noites. Os odores lacerantes, os ruídos cavernosos, as lágrimas como oceanos perdidos. Alguma coisa era diferente, murmuravam sem os seus capuzes que lhes foram arrancados com fúria e sem misericórdia. E elas, nuas diante do desconhecido sussurravam suas angústias de crianças, até porque nada sabia daquele Sr. Hinzpeter que parece quis aprovar uma lei que proibia os capuzes nas marchas, sob pena de os manifestantes serem detidos e encarcerados. Ao menos foi isso que lhes contaram do canto das celas onde choravam os meninos e as meninas do Chile. E elas, nuas, sem entender um país onde o presidente oferece bônus para premiar as mulheres que têm mais de dois filhos, filhos como eles, que não podem colocar capuzes numa manhã gélida de inverno. Então, ruminavam: Para que mais filhos se não podem proteger-se do frio? Para que ter outros filhos se não podem estudar? 100 mil pesos! Gritou alguém, 100 mil pesos é o bônus que lhes darão pelo gesto glorioso de oferecer uma criança à Pátria.

Na lobreguidão de seus calabouços, os meninos e as meninas do Chile perguntavam a partir de sua imensurável ternura, se a esse bebê patriota lhe dariam bônus para que tivessem acesso grátis à educação, à saúde, ao esporte, à arte; se poderia casar-se com quem quisesses sem importar o sexo, e receber grátis os anticoncepcionais, ou o comprimido do dia seguinte; divorciar-se sem pedir licença, ou cultivar maconha sem que incomode ninguém. E poderia ter educação, saúde, casar, divorciar, plantar maconha, mesmo se usasse capuz até no verão, se quisesse? Alguém disse: parece que não, que não se pode neste país e que nem pensem em protestar na rua, e se fizerem isso, muito cuidado para não xingar um policial, mesmo se ele insultar e espancar você, porque é um crime muito grave.

Assim, quando muitas horas depois foram colocadas em liberdade, caminharam bem devagarzinho com seus capuzes nas mãos, sem se atreverem a cobrir seus rostinhos azulados de frio, por temor, por raiva. Depois de um tempo, disseram simplesmente: O que estão pensando, este também é o meu país e eu faço o que quero! E começaram a brincar os meninos e as meninas do Chile.

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