Entre eleição e eleição, o que há?

quarta-feira 4 de Setembro de 2013

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Autor: Aram Aharonian*.

Editora e Canal:Agência Latino-Americana de Informação (ALAI).

Tipo de documento: Artigo.

Língua: Espanhol.

Assunto: Política.

As palavras-chave: Democracia, modelos de desenvolvimento, modelo econômico socialista, neoliberalismo, opinião pública e os paramilitares.

Países e Regiões: Venezuela.

Entre denúncias de tentativas de magnicídio e sabotagens, debates em torno das formas de combate à corrupção, falta de discussão dos modelos de desenvolvimento ou planejamento econômico-financeiro, decorrem os três meses que faltam para as eleições municipais de dezembro, em meio a campanhas midiáticas destinadas a confundir a população, em lugar de informar ou orientar a cidadania.

Para o grupo chavista Maré Socialista, a Revolução Bolivariana atravessa seu momento mais crítico, isto porque a morte de Hugo Chávez abriu nova disputa pela hegemonia política no país. As eleições de 14 de abril não significaram continuidade, e sim do rompimento; mostraram claramente que tinha começado uma nova fase no Processo, afirmam. E assinalam que para mudar o rumo, é imprescindível defender as conquista sociais e políticas dos últimos 14 anos.

Tal parece que a Venezuela vive de eleição em eleição, sem ter conseguido definir o seu modelo de desenvolvimento e subsistindo com uma economia baseada na monocultura e nas receitas obtidas pela venda do petróleo. A defasagem do tipo de câmbio, por exemplo, faz com que um tanque de gasolina de 50 litros custe 1,5 dólares, o mesmo que um só litro em qualquer outro país da região.

E enquanto setores da oposição, liderados aparentemente por Henrique Capriles Radonsky – que continua buscando apoio político e financeiro nos setores da extrema direita no exterior -, vêem perto o apocalipse, dirigentes do chavismo insistem em que seja qual for o resultado, este não vai incidir de jeito nenhum sobre o rumo da Revolução Bolivariana.

Os dados revelam que Nicolás Maduro se consolidou na sucessão presidencial. Tem mais, a pesquisadora Hinterlaces revela que 90% dos venezuelanos querem que ele tenha êxito na sua gestão, e 56% julgam positivo seu trabalho como Chefe de Estado.

E desta feita – mais uma vez – um setor da oposição considera que as eleições de oito de dezembro serão um plebiscito, e se os resultados favorecessem o antichavismo, deveriam repetir-se as eleições presidenciais de abril deste ano, nas que Maduro ganhou apertado de Capriles Radonsky.

Tem gente apocalíptica que chega a dizer que uma vitória municipal justificaria qualquer ação violenta (em abril foram responsáveis por 14 mortes e quase cem feridos) e até golpista (se acharem militares dispostos).

Prepara-se a opinião pública para a surrada denúncia de “fraude” nas eleições. Este setor da oposição não admite uma derrota eleitoral e repete a mesma ladainha de sempre: bombardeiam constantemente a imprensa comercial (rádios, televisão, jornais), e inundam as chamadas redes sociais de propaganda. Se ganharem, a violência vem aí… e se perderem, também. A opção deles é retomar pela força as prebendas que perderam 14 anos atrás, sonhando com o renascer do neoliberalismo.

Na Venezuela, os meios procuram a regulação democrática dos conflitos, ou exacerbam o confronto. Existe uma pressão da cidadania contra a mentira política ou prevalece a tolerância nas audiências politizadas. Há meias verdades que matam… as boas práticas do jornalismo, assinala a socióloga Maryclén Stelling.

Porém, também existe um setor da oposição que acredita na democracia, se bem que a experiência venezuelana demonstra que estes “moderados” acabam sepultados pelas investidas dos setores desestabilizadores e golpistas, seduzidos pelo desconhecimento permanente da ordem constitucional, como ocorre desde 2002: golpe, guarimbas, sabotagem petroleira, tentativas de desobediência civil, chamadas a ignorar a realidade (entendam-se derrotas sucessivas).

De novo, a oposição insiste na convocação de uma Assembléia Constituinte. Alguns fazem isso pensando em um mecanismo que permita votações antes das presidenciais de 2018. Outros (setores poderosos) querem modificar a definição atual de economia mista por uma visão neoliberal, sem direitos à saúde, à educação e à moradia.

Em geral, nenhum deles gosta do modelo de participação popular, e tem quem sustente que mesmo ganhando as eleições presidenciais, o poder público não ficará em suas mãos.

Entre sabotagens e denúncias, o futuro

O sociólogo opositor, Leopoldo Puchi, assinala que a estratégia opositora de uma “primavera árabe” desinflou depois de 14 de abril e seu rasto de mortos e feridos. Na verdade, esse não é o principal perigo para o governo: o desafio são os votos, diante do descontentamento com a ineficiência e o burocratismo, que não é fácil de reverter. “E sabemos que sem votos não há paraíso”, assinala, após realçar que as expectativas criadas nas bases do PSUV em torno da realização de eleições primárias foram frustradas. Maduro denunciou publicamente novas operações paramilitares com o objetivo de atentar contra sua vida e a do presidente da Assembléia Nacional Diosdado Cabello conforme plano organizado na Colômbia por setores ligados ao ex-presidente Álvaro Uribe, a ex-funcionário norte-americano Roger Noriega e o terrorista de origem cubana Luis Posada Carriles.

Estes setores – denunciou – recrutaram mercenários e paramilitares colombianos, planejaram uma operação encoberta com uniformes do exército venezuelano, para criar a imagem de uma ação militar contra o governo bolivariano. Aos projetos de magnicídio se somam as sabotagens nas refinarias e usinas termelétricas.

Reinaldo Iturriza, ministro das Comunas, afirma que “ocorre com freqüência que certos raciocínios nos governam, e esses raciocínios induzem práticas que também nos governam e um dia acordaremos governados por forças que não são as nossas”.

Toby Valderrama, colunista chavista, assinala que a luta interna é sinal de que a Revolução goza de boa saúde: “sabemos que o silêncio, a falta de debate, a unanimidade, é suicídio. O trabalho mais importante da direção é manter o equilíbrio, para que a luta interna de classes não desborde, para que se realize no corpo a corpo dos argumentos e não das baionetas. Do êxito obtido na discussão dependerá o rumo da Revolução.”.

E a cúpula do PSUV, ao indicar os candidatos a prefeitos e vereadores, assinala que a tarefa dos revolucionários é discutir – acima de qualquer dificuldade e incompreensão -, é criticar, prestigiar as idéias, combater os desvios com coragem. O “sectarismo” é o que provoca o mal-estar entre os aliados do Grande Pólo Patriótico.

No intervalo entre eleição e eleição as dúvidas continuam: se é preciso reativar ou transformar a economia. O economista e ex-ministro Victor Alvarez explica que a reaquecimento econômico é um processo que deve estar em harmonia com a transformação estrutural, em função de substituir a ordem antiga, explorador do ser humano e depredador da natureza, e também capaz de erradicar as causas estruturais do desemprego, da pobreza e da exclusão social.

Desde que a reconversão monetária entrou em vigor – explica – a inflação acumulava 311,3%. Isto significa que, hoje em dia, um Bolívar equivale 0,2431 centavos do Bolívar forte que começou a circular em janeiro de 2008. A inflação no mês de julho chegou a 29% e a anualizada atingiu 42,6%.

O tamanho da corrupção e da ineficiência é um fator que não só incide sobre o desgaste do modelo político atual, mas também conspira contra as esperanças de milhões que acreditam numa sociedade socialista justa. A prática generalizada da corrupção enquistada no aparato do Estado por grupos ou castas é, também, um dos principais obstáculos para a construção de um modelo econômico socialista, assinala o economista Simón Zúñiga.

Tolerar a corrupção virou uma cultura que se manifesta no peculato, no desvio de fundos, na negociação de recursos naturais (como ouro e coltan) e a prática do nepotismo.

A difícil conjuntura econômica e as vacilações contínuas na cúpula governamental impediram a entrada em vigor de uma série de medidas graduais, mas urgentes, para enfrentar os principais problemas econômicos e financeiros de curto prazo, afirma Zúñiga. As urgências econômicas reais da cidadania também colocam em dúvida os resultados de dezembro. Preocupa que se queira interpretar as eleições seguidas como expressão de democracia. Uma das principais conquistas deste processo foi converter o cidadão em sujeito de política (e não em mero objeto da mesma). Confundir, portanto, a participação passiva das eleições com a democracia participativa, é uma piada de mau gosto.

*Jornalista e professor uruguaio-venezuelano, diretor da revista Question, fundador de Telesur, diretor do Observatório Latino-Americano em Comunicação e Democracia (ULAC)

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