Martí e a Revolução Cubana

quarta-feira 30 de Janeiro de 2013

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Autor: Frei Betto.

- Tradução de J.L.Burguet.

Publica: América Latina em Movimento.

Canal: Agência Latino-Americana de Informação (ALAI).

Tipo de documento: Artigo.

Linguagem: espanhol.

Tema: Revoluções.

As palavras-chave: Desenvolvimento, Educação popular, Socialismo, Teologia da libertação.

Países e Regiões: Cuba, América Latina.

Descrição: Artigo de opinião de Frei Betto, escritor, autor de “Conversa sobre a fé e a ciência”, junto com Marcelo Gleiser, entre outros livros. (www.freibetto.org/> twitter:@freibetto).

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Na última semana de janeiro se comemorará em Havana, patrocinado pela UNESCO, o 160º aniversário de nascimento de José Martí, sobre o equilíbrio do mundo.

A história da América Latina é rica em líderes sociais, que encarnaram - nas suas idéias e atitudes - utopias libertárias. Contudo, são raros os que, se por um milagre ressuscitassem do sepulcro, veriam aplicados efetivamente os seus sonhos e projetos. Um deles é José Marti, que veria na Revolução Cubana, que seu sacrifício não foi em vão. José Marti morreu com as armas na mão, em 1895, defendendo a emancipação de Cuba do domínio espanhol.

Sua luta lançou raízes que floresceram no projeto de soberania e libertação nacionais, com expressiva ressonância internacionalista, realizado pelo povo cubano nas seis últimas décadas, sob a liderança dos irmãos Fidel e Raul Castro.

Graças a Marti, a Revolução Cubana preservou sua cubanidade, sua originalidade, sem se deixar aprisionar por conceitos dogmáticos, que noutros países socialistas produziram nefastas conseqüências. Marti tinham o dom de ser homem de ação sem deixar de ser um intelectual refinado, um pragmático e um espiritualista. Nunca perdeu o senso crítico e autocrítico.

Marti viveu quinze anos nos Estados Unidos, em Nova York, de 1880 a 1895, quando lá estava gestando-se uma transformação que imprimiria ao capitalismo o seu caráter agressivo. Ao mesmo, teve a possibilidade de conhecer o mais avançado nos pensamentos filosóficos, científicos e espirituais. Na sociedade norte-americana, Marti constatou o que significa desenvolvimento econômico centrado na apropriação privada da riqueza, indiferente às verdadeiras necessidades humanas, e como essa concepção egocêntrica limitava a vida espiritual.

O papel de Cuba no equilíbrio da América Latina e do Caribe tem suas raízes no século 18, quando, graças à influência do enciclopedismo, a cultura cubana adquiriu identidade e expressão. Nesse processo, merecem destaque homens de profundo sentido espiritual, como o bispo Espada, Félix Varela, Luz y Caballero, para culminar em Marti e naqueles que ele formou, por exemplo, Enrique José Varona, mentor dos jovens universitários, no começo do século 20.

O que marcou a geração de Varela, Luz e depois a de Marti, foi a sua capacidade de assimilar as novas idéias iluministas, sem tirar os pés do chão latino-americano e caribenho. Há um princípio de educação popular que se aplica muito bem a essas figuras históricas, e que também explica a originalidade dos seus pensamentos: cabeça pensa onde pisam os pés.

Nas motivações do ideário que os movia estava o sofrimento dos povos indígenas e dos escravos, a sanha colonialista, a luta pioneira do meu irmão de hábito frei Bartolomé de las Casas, os princípios cristãos da sacralidade radical de cada ser humano, considerado filho amado de Deus, independentemente de sua classe, etnia ou atividade social.

A luta pela liberdade e a justiça foi iniciada, no nosso continente, pelos povos indígenas. Milhões deles foram encarcerados, enforcados, queimados vivos, decapitados, e esquartejados. Tupac Amaru clamou contra a opressão colonialista. Hatuey, líder indígena de Cuba, foi queimado na fogueira; consta que quando lhe perguntaram se queria aceitar a religião dos seus carrascos espanhóis, para garantir um lugar no céu, perguntou se eles também iriam ao céu ao morrer, e ao lhe responderem que sim, Hatuey disse que então não queria estar com eles no paraíso... Também as mulheres indígenas, como Bartolina Sisa e Micaela Bastidas, lutaram e morreram defendendo os direitos dos seus povos.

Todos estes antecedentes explicam a Revolução Cubana e porque destaca como fator de resistência na América Latina. Antes da vitória na Sierra Maestra, o nosso continente era zona de ocupação e exortação, de exploração e submissão aos países mais poderosos de Ocidente. A Revolução Cubana deu o “basta” ao imperialismo, recatou o espírito de soberania dos povos caribenhos e latino-americanos, acordou a consciência crítica da nossa gente, fomentou movimentos libertários, comprovou que a utopia pode transformar-se em topia e que a esperança nunca é em vão.

Cuba venceu o colonialismo espanhol eliminando a escravidão e garantindo sua independência como nação. Com a vitória da Revolução, impôs limites à expansão imperialista dos Estados Unidos.

E se deu mais tarde um movimento de libertação nacional que abraçou o projeto socialista. Porém, o equilíbrio se mantém. Marti não foi substituído por Marx; a fé religiosa dos cubanos não foi eliminada pelo materialismo histórico e dialético; a arte não se deixou desvirtuar pelos limites estreitos do realismo socialista. O que no pensamento europeu soava como antagônico, aqui, na América Latina e no Caribe, se revelou paradoxal. O que parecia irreconciliável do outro lado do oceano, aqui representa convergência, como o marxismo privado de dogmas, ou o cristianismo desprovido de arrogância elitista, mas sensível ao clamor dos pobres, o que desembocou na Teologia da Libertação.

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