O Brasil na África: cooperação e negócios

quinta-feira 6 de Junho de 2013

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Autor: Roberto Bisio.

Editora e Canal: Rede do Terceiro Mundo (RTM).

Tipo de documento: Notícia.

Língua: Espanhol.

Assunto: Cancelamento da Dívida.

As palavras-chave: Ações humanitárias, Cooperação bilateral.

Países e Regiões: Brasil e África.

No Brasil, é muito mal visto chegar a uma festa com as mãos vazias. E sendo a única presidente não africana presente na comemoração do 50º aniversário da organização de integração continental, Dilma Rousseff não só levou palavras de amizade a Adis Abeba, mas também um presente: o cancelamento das dívidas de doze países africanos que, em total, perfizeram quase 900 milhões de dólares. O montante supera o total recebido como assistência oficial para o desenvolvimento pelo Brasil, que se converte assim em doador neto, sem deixar de ser, oficialmente, um país em desenvolvimento. O gesto não é apenas filantrópico, Rousseff explicou em entrevista coletiva “sem cancelar não consigo fazer investimentos, financiar empresas brasileiras nos países africanos e relações comerciais com maior valor agregado”. Quando Lula da Silva começou a dedicar boa parte de seus esforços diplomáticos e de seu tempo pessoal a cultivar relações com os países do Sul, essa política foi vista como ideológica e pouco pragmática pelos meios empresariais brasileiros. Porém, em dez anos o comércio entre o Brasil e a África se multiplicou por cinco, passando de cinco bilhões de dólares em 2002, para 26 bilhões em 2012. Quase a metade das exportações são manufaturas, uma proporção muito mais elevada que o conjunto das exportações brasileiras, nas que os produtos industriais com maior valor agregado que as matérias-primas agrícolas ou minerais representam apenas um terço do total. Nesses dez anos, o Brasil aumentou de 17 a 37 o número de suas embaixadas na África, e o banco brasileiro de desenvolvimento BNDES começou a fornecer linhas de crédito para a construção de um aeroporto em Moçambique e a instalação de sistemas de cobrança eletrônica nos ônibus sul-africanos. A maior parte dos créditos concentra-se em Angola, onde a construtora brasileira Oderbrecht virou o principal empregador do país. Durante a visita de Rousseff, se informou de créditos brasileiros de um bilhão de dólares para a ferrovia da Etiópia, o país sede da Unidade Africana. A empresa estatal Petrobras e a mineradora Vale do Rio Doce são os outros dois grandes investidores na África concorrendo muitas vezes com firmas chinesas para a exploração e prospecção do subsolo. Por trás desses gigantes, dezenas de empresas brasileiras de pequeno e médio porte se estabelecem no continente, como provedoras e subcontratantes. A linha aérea brasileira de baixo custo GOL anunciou que via inaugurar em breve um vôo direito entre São Paulo e Lagos, a maior cidade da Nigéria. Este vôo demorará algumas horas menos que o trajeto direto a Miami. Para além da vizinhança geográfica, de um lado e do outro do Atlântico Sul, o Brasil e a África têm história comum que mal começa a escrever-se, o solo e o clima são semelhantes. A medicina tropical desenvolvida pela Fundação Osvaldo Cruz viabiliza dezenas de acordos de cooperação, entre eles um com Moçambique, para produzir no país africano medicamentos genéricos contra o HIV/AIDS. Por sua vez, a agência brasileira de pesquisa agropecuária EMBRAPA está trabalhando na adaptação de sua experiência em aridez do cerrado ao Sahel. O Brasil coopera com Benin, Burkina Faso, Chade e Mali na melhora do algodão. Simultaneamente, na Organização Mundial do Comércio, faz frente comum com estes países contra os subsídios dos Estados Unidos aos produtores norte-americanos de algodão, que prejudicam diretamente aos países africanos anteriormente mencionados e ao próprio Brasil.

Na área de energia renovável, que Rousseff conhece de perto, ao ter sido ministra do setor durante a presidência de Lula, o Brasil está promovendo ativamente suas tecnologias para a obtenção de etanol e partir de biomassa, em particular da cana-de-açúcar. Em diferentes ocasiões, a presidente brasileira comparou o etanol com a energia solar, promovida pelos europeus, a que considera “um crime contra África” porque geraria dependência tecnológica. Enquanto Rousseff brindava com seus colegas africanos pelos “nossos amplos interesses comuns” e uma cooperação Sul-Sul “que beneficie ambas as partes”, o ex-presidente da Tanzânia Benjamin Mkapa criticava em duros termos os acordos comerciais que a União Européia está negociando com a África. No seu entendimento, as propostas atualmente sobre a mesa “impedirão que os países africanos se desenvolvam, porque lhes negam acesso aos mercados”, enquanto isso, os produtos europeus se beneficiariam com rebaixas de tarifas e impostos. A União Européia continua sendo a principal fonte de assistência à África, mas são o Brasil e a China aos que os governos vêem como parceiros. No sentido inverso, a imagem da África Subsaariana no mundo desenvolvido continua sendo a de uma região miserável, mergulhada na pobreza total. Os diplomatas e os empresários brasileiros, em troca, vêem economias que estão crescendo em ritmo de sete por cento ao ano e um continente no qual onze países já têm renda per capita superior a da Bolívia.

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