Peru: A matriz invertida

quinta-feira 8 de Novembro de 2012

Todas as versões deste artigo : [Español] [Português]

Autoria: Oscar Ugarteche

Publica: América Latina en Movimiento

Canal: ALAI AMLatina

Tipo de documento: Artigo

Linguagem: espanhol

Tema: Situação política no Peru

As palavras-chaves: Estado, Justiça, Meios de comunicação, Política

Países e Regiões: Peru, América Latina

Descrição: Artigo de opinião escrito por Oscar Ugarteche, economista peruano, trabalha no Instituto de Pesquisas Econômicas da UNAM, México. É presidente de ALAI e coordenador do Observatório Econômico da América Latina (OBELA)

Há 15 meses, o Peru tinha o quadro político seguinte: à esquerda, Ollanta Humala e os nacionalistas; à direita, Keiko Fujimori e a direita radical. A grande imprensa – associada à SIP – estava com Keiko Fujimori e a embaixada dos Estados Unidos apoiava essa candidatura. Humala era sinônimo do mal em termos da grande imprensa, enquanto que Keiko era o “bem”, seu único defeito era que queria tirar o pai da cadeia. Fora disso, tudo bem.

Quinze meses mais tarde, Humala deu fora no pessoal da esquerda que o tinha levado ao poder; falando pela televisão, argumentou sua decisão dizendo que “essa gente” não sabia trabalhar. Isso foi acompanhado de uma virada na política exterior contra os esquemas de integração; chegou-se a tal extremo que o Peru não preside o grupo de trabalho de integração financeira da UNASUL como lhe corresponderia e, ao mesmo tempo, lidera a presença militar norte-americana no território sul-americano. Com essa atitude rompe a idéia do Conselho da Defesa Sul-Americano, parte essencial da UNASUL.

Torcido o rumo político, agora há uma inversão da matriz política através da iniciativa de Humala de indultar Fujimori. Parece uma ação gratuita. Só que na política não há ações gratuitas. A única explicação é que foi convencido pelos montesinistas. Agora, se indultar Fujimori terá de indultar todos os que estiverem na prisão pelas mesmas razões. Pelo menos deve pensar que esse pessoal vai pedir indulto. Esse grupo não se preocupa com Montesinos, que, aliás, está saindo-se bem dos julgamentos por tráfico de drogas e corrupção. Provavelmente, Montesinos estará livre em 2016, mas pode ser antes por bom comportamento.

O único que se sabe é que um pequeno grupo ligado a Fujimori, responsável de trazê-lo de Tóquio a Santiago cometendo um espantoso erro de cálculo, agora está se aproveitando dos montesinistas e da Sociedade Nacional de Mineração (“Conga vai, Conga não vai”) para acabar de inverter a matriz política. Fujimori acaba de alugar um escritório para os ex-congressistas do fujimorismo Jorge Trelles (recordado por aquela frase na televisão “não matamos tantos”), Germán Kruger, ex-prefeito de Miraflores, e Carlos Raffo Arce (este último, condenado a três anos de cadeia suspensa, por ter recebido dinheiro do Estado peruano através do ex-assessor do SIN, Vladimiro Montesinos Torres). Por que alugaria Fujimori o escritório? Ora, porque acredita que pode governar. Na verdade, está governando. A iniciativa política é do próprio Fujimori, que governa através desse grupo. Humala ainda não sabe que governa quem tiver a iniciativa política e a capacidade de executá-la.

O novo réu é Javier Diez Canseco, que, como se recordará, Foi o responsável pelas comissões de inquérito no Congresso da República que investigaram a corrupção do governo de Fujimori. De um lado, a campanha pelo indulto de Fujimori. Do outro, a campanha contra Javier Diez Canseco por corrupção. Sem dúvida, a matriz política acabou se invertendo. Vale lembrar que Diez Canseco renunciou à sua aliança com o partido Nacionalista há quase um ano, quando Humala virou-se para a direita.

O importante é saber quem governa e como. Está claro que Humala não governa. Não decide a política exterior, a integração e a relação com os Estados Unidos, nem a política doméstica, nem o indulto de Fujimori, nem os julgamentos contra Montesinos ou a acusação contra Diez Canseco, sem falar na campanha contra a prefeita de Lima. Pior ainda, não decide sequer sobre seu chanceler e seus embaixadores políticos.

Tudo indica que o grupo de Alan Garcia, aliado dos fujimoristas, tem o poder e decide sobre a agenda política. Eles inverteram a matriz e afastaram o presidente, que, por sua vez, se colocou atrás de sua mulher. No atual quadro político, o partido Nacionalista é que permite a entrada das tropas norte-americanas em território nacional e faz o jogo à política exterior militarizada de Washington, bem como preside esta posição dentro da América do Sul contra as iniciativas brasileiras de um conselho regional. É o “nacionalismo” que trabalha contra a integração e a favor do alinhamento com Washington no plano econômico. Parecido demais com o governo de Alan Garcia para não ser o mesmo. Este “nacionalismo” tão estranho que produz crescimento do PIB de 7% e acumula reservas fiscais está disposto a quebrar o MERCOSUL e puxar o Paraguai para a Aliança do Pacífico. No aspecto político, portanto, a política peruana é manipulada por um pequeno grupo de fujimoristas e montesinistas do governo, bem como o núcleo duro de Alan Garcia. Já no aspecto econômico, as coisas não são tão claras.

Sabe-se que são os neoliberais, mas: que interesses se mexem por trás deles? Como sempre, é o setor financeiro? Ou a SNM? Ou ambos? Ou como nos anos 90, será o próprio Banco Mundial + o Banco de Crédito? Quem coloca os assessores do ministro e quem paga o salário do ministro, como e onde? O chefe dos assessores do ministro de Economia continua sendo o Banco de Crédito? Dom Corleone continua negociando no escuro sua informação privilegiada evitando assim uma crise bancária como em 1998?

O maior ponto de interrogação continua sendo a mulher do presidente. Uma caçadora de abaixo-assinados progressistas a favor de seu marido a partir de 2006, ela foi, segundo a imprensa peruana, uma beneficiária de fundos de Chávez para a campanha eleitoral de 2006 e para fazer campanha depois de 2006. Mais tarde, já no poder, não teve nenhuma dúvida em dispensar seus recrutas progressistas e criar fama de neoliberal. De qualquer maneira, ao Fórum de São Paulo não voltou como primeira-dama. Ela se tornou célebre com aquela frase: “é tão difícil caminhar direito?”. Quem pode entender o sentido da palavra “direito” da primeira-dama. A palavra “nacionalista” também não fica clara no Partido Nacionalista. Washington é o grande vencedor deste processo. A foto de Nadine Heredia com Hillary Clinton e Bachelet é o epítome disto. Foi o processo 2006-2012 mero oportunismo? Estamos na presença de um logro político? É esta a expressão verdadeira da desagregação peruana no plano político? Se for assim, Humala se parece mais com Fujimori do que alguém poderá ter imaginado e deveremos analisá-lo nessa ótica.

Com o poder judicial perfurado pelos montesinistas e os apristas, abre-se um cenário com Fujimori livre, Montesinos livre e Diez Canseco na cadeia. O governo estaria totalmente administrado pelo pessoal de Fujimori e a aliança com Washington estaria alicerçada. Se este cenário se consolidasse, o Peru se converteria na plataforma de luta contra os governos sul-americanos do Atlântico, o que, aliás, já vem ocorrendo de maneira incipiente. A saída do embaixador Nicolás Lynch de Buenos Aires, e de Ainda Garcia Naranjo de Montevidéu são os primeiros passos nessa direção.

Dentro do Peru, o problema é mais complicado. A adversária dos fujimoristas/apristas é a prefeita de Lima Susana Villarán que, se tivesse êxito na sua gestão, poderia ser presidenciável. Por esta razão, é imprescindível para o pessoal do núcleo pequeno que a prefeita saía e não possa ser eleita presidente. A briga é pelo poder e o que está em jogo - como na Argentina – é tanto o poder simbólico, quanto o poder verdadeiro. O braço político militar do grupo fujimorista/aprista foi visto no ataque à Parada de quinta-feira, anterior ao “Dia dos Finados”; antes já tinham sido vistos atuar nas marchas contra Fujimori em 2000, quando atearam fogo ao Banco de la Nación e ao Arquivo Nacional cumprindo ordens de Montesinos.

Os novos apristas são essa massa amorfa e despolitizada disposta a trabalhar e matar por cem sóis ao dia. O discurso desses delinqüentes é colocado pelos políticos fujimoristas como se espera. São delinqüentes comuns arregimentados – diz a imprensa de Lima – por “100 sóis”. Cinqüenta desses delinqüentes são capazes de fazer muito mal e produzir medo, principalmente se a grande imprensa lhes der espaço. Farão ou não farão os fujimoristas uma espécie de aliança estável colocando estes delinqüentes a agir o tempo todo para gerar o caos? Esta é a questão. Não se entende por que a grande imprensa monopólica associada com SIP assume essa posição. Inclusive editoriais contra Diez Canseco, para destruir 40 anos de vida política honrada que lhe custaram alianças, amigos, colegas e familiares. No México, dizem que é impossível ser honrado na política. “Um político pobre é um pobre político” reza o ditado mexicano. No Peru, sim é possível, tanto Diez Canseco quantoVillarán são exemplos. Isto é muito importante, ambos se contrapõem aos jornalistas que antigamente eram de esquerda e acabaram vendendo suas canetas a interesses subalternos. Na imprensa peruana, porém, não há muito espaço para quem discordar dos fujimoristas, que controlam quase todos os meios, hoje em dia.

Os fujimoristas criticam os diplomatas de esquerda – são apenas dois - porque eles têm epítetos. Pelo menos, têm amigos que lhes puseram epítetos. E como eram os diplomatas do fujimorismo? Quem fora embaixador no México era acusado de tráfico de drogas; já o embaixador em Tóquio estava casado com a irmã de Fujimori, e sabia onde estava o dinheiro da família que Fujimori usou para viver cinco anos em Tóquio – a cidade mais cara do mundo – educar seus filhos, e financiar a campanha eleitoral de Keiko. Esses sujeitos nada sabiam de relações internacionais e nem sequer tinham epítetos. Marca e Aritomi e esposa são delinqüentes fugitivos da justiça. Essa era a diplomacia fujimorista. E ainda tem a coragem de criticar Lynch e Garcia Naranjo por terem epítetos, e desqualificá-los por esse motivo!

A diplomacia política de Fujimori, como o próprio Fujimori, tem um histórico, e não foi à toa que seu governo caísse depois de ser acusado pelo ministro da Defesa da Colômbia de ter vendido armas e aviões da Força Aérea Peruana às Farc em troca de cocaína, nos primeiros seis meses de 2000. Era isso que faziam Montesinos e Fujimori quando o povo saiu às ruas para enxotá-los. O já fechado caso do avião presidencial cheio de drogas é outro exemplo. “Delinqüentes fugitivos” em referência aos diplomatas políticos fujimoristas são dois substantivos e não um epíteto. Os outros dois são delinqüentes e estão pagando na prisão. A falta de autoridade moral dos políticos do fujimorismo representados por dois delinqüentes e vários delinqüentes fugitivos, que envergonharam o país no exterior, deve conduzir à reflexão sobre a inversão da matriz política, o desmantelamento da classe política e a falta de autoridade presidencial no Peru. Que Fujimori governe a partir da prisão, tire e ponha embaixadores, possa garantir que Diez Canseco mofe na cadeia, e Villarán não concorra à presidência em 2016, é a inversão total da matriz. Afinal de contas, ganhou as eleições sem precisar de sua filha, com a ajuda de quatro pessoas, um celular para dar indicações e, certamente, um laptop para se manter informado. Estará comunicado com seu gêmeo e companheiro de andar no SIN: Montesinos e, naturalmente, com Malca e Aritomi. A imprensa que faz campanha para ele sabe o que está fazendo.

Neste cenário, o papel do governo nacional será sempre a favor dos fujimoristas a não ser que Humala consiga recuperar a iniciativa política e o sentido do Estado, ou que seus eleitores possam contê-lo. O presidente deve mostrar seu poder. Talvez tenha cedido consciente o poder a Fujimori. Se a presidência não existe, também não existe o poder judicial, nem o eleitoral; e agora nem o legislativo, liderado por Alejandro Aguinaga, membro da equipe da casinha montada por Fujimori com os outros três. A grande imprensa monopólica faz parte da patranha e da campanha de ódio contra a prefeita, contra Diez Canseco e contra a diplomacia de Lynch e Garcia Naranjo, arquitetada por Fujimori e seus cúmplices na casinha da Rua Três Marias.

Ver em linha : Peru: A matriz invertida

Tejiendo Redes.
C/ Hermanos García Noblejas, 41, 8º. 28037 - MADRID.
Tlf: 91 4084112 Fax: 91 408 70 47. Email: comunicacion@fidc.gloobal.net

SPIP |