Carta aberta dos contestatários de Istambul ao povo da Tunísia

terça-feira 4 de Junho de 2013

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Fonte: Nawat.

Data: 04 de Maio de 2013.

As palavras-chave: Turquia, Democracia, Tunísia.

Há pouco tempo vocês acenderam a chama na sua região; essa chama se espalhou rapidamente por todas as partes transformando-se numa tocha que guia não só o seu país, mas também muitos outros pelo caminho no qual os regimes opressivos não são tolerados. Este auge não é só em nome da democracia, da liberdade e dos direitos dos quais vocês teriam sido privados. Vocês tem sido fonte de inspiração e o mundo olha para ver como conduzem o seu país a um futuro mais humano, mais significativo e mais livre.

Hoje, na Turquia, vivemos momentos transcendentes, marcados pela solidariedade dos que se sublevam pacificamente contra um governo opressivo. A polícia, na que confiamos normalmente, que chamamos quando precisamos dela, que jurou nos proteger, ataca-nos com armas químicas que queimam os tanques com diferentes tipos de gases não nos deixam respirar; com jatos d’água, com balas de borracha que atiram na cabeça das pessoas. Por que fazem isso? Ora, porque reagimos segundo as possibilidades que nos proporciona a nossa Constituição: protestamos.

Há cinco dias, os moradores do bairro de Taksim em Istambul estão protestando contra o projeto de construção de um centro multifuncional, no lugar onde se encontra o único parque do bairro. Os manifestantes eram simples ecologistas que queriam parar as obras de construção e pegaram suas barracas e acamparam no lugar. Um dia, às 5 da manhã, a polícia montou uma operação e dispersou as pessoas com gás pimenta e jatos d’água quando dormiam nas barracas.

A operação contra uma simples manifestação, de mais a mais pacífica, recebeu uma resposta categórica de toda a Turquia. Hoje, centenas de milhares de pessoas vieram a Istambul, há movimentos de resistência em muitas cidades que denunciam a violência da polícia, totalmente arbitrária e contrária aos princípios democráticos. A multidão se multiplica, é imensa, permanece unida e tranqüila; uns a outros se controlam para manter a calma nos momentos de tensão e para evitar qualquer reação de violência, apesar do uso da força desproporcionado pela polícia. De fato, hoje estamos unidos. Atualmente já não estamos combatendo, estamos resistindo.

A cada dia é mais evidente que somos pacifistas, que só queremos nos proteger, diante de uma polícia cuja resposta é cada vez mais brutal. Uma rápida busca mostra imagens atrozes, vídeos e histórias pessoais dos manifestantes. Poderão ver imagens de uma menina espancada e insultada por 10 policiais. Verão os policiais jogando bombas de gases dentro dos edifícios e fechando as portas para que as pessoas não possam sair. Vocês verão os policiais jogar gases nas mesquitas, onde os jovens voluntariamente tentam aplicar os primeiros auxílios para salvar a vida dos feridos. Ao mesmo tempo, você verá, também, uma solidariedade sem par na Turquia.

Somos um povo que se sente culpado quando vai deitar; quando não está nas ruas com seus amigos para respirar o gás químico, constantemente pulverizado. À noite, nos convertemos em químicos, farmacêuticos, enfermeiros, agentes da inteligência e jornalistas; simplesmente, viramos amigos. Agora, nessa mesma busca de informação, nas ruas, há gente que se protege e se apóia com todos os recursos possíveis.

Poderão ver os manifestantes resistir, de mãos dadas, durante a noite toda e limpar as ruas que foram testemunhas de seu combate, durante o dia, mas sempre de mãos dadas. Poderá encontrar um fluxo incalculável de informações entre os manifestantes pelos meios de comunicação adotados pelo governo, para impedir que utilizemos o nosso direito democrático como cidadãos dignos. Para protestar e ser ouvidos.

As nossas redes informativas oprimidas pelo governo não querem publicar o que está se passando diante de seus olhos. Por isso, as pessoas se organizam, para que o mundo todo saiba do que está acontecendo, tanto na região de Anatólia como no mundo todo. Esta violência praticada contra as gerações que o futuro do nosso belo país não pode continuar sendo tolerada. Nós não somos terroristas, e não queremos que nos considerem como tais.

Hoje estamos unidos. Hoje somos Um. Rechaçamos que nos associem com qualquer partido ou ideologia. A nossa ideologia é a liberdade, é a democracia. Somos gente de todas as idades, de todas as minorias étnicas, de todas as ideologias, que, ombro a ombro, se revoltam contra um governo que não respeita os princípios de uma democracia verdadeira.

Nós nos revoltamos contra o nosso Primeiro-Ministro, que respondeu às nossas chamadas recordando-nos que contava com o apoio de 50% da população turca e que se quisesse poderia convocar um milhão de pessoas para que saíssem às ruas e nos combatessem. É lastimável, isto porque nós não somos contra uma porção da nossa população; somos contra da mentalidade dos que se apóiam nos seus votos para legitimar suas ações arbitrárias. Pois bem, a democracia não se define assim, uma democracia é polifônica durante e depois das eleições.

Nós nos revoltamos contra o sistema que submeteu cada comunidade, em diferentes fases da história da Turquia moderna; a comunidade islâmica, a curda, a Armênia e outras muitas. Nós reivindicamos hoje o direito de ser ouvidos e respeitados pelo governo que tem a função de nos proteger e nos dar o direito de viver como seres humanos dignos de respeito no país que amamos. Queremos que o nosso Primeiro-Ministro detenha as forças policiais e nos deixe manifestar-nos em paz. Assim, poderá ver que está atacando a sua própria juventude e mais ninguém.

O motivo desta carta que lhe enviamos esta semana é que o nosso Primeiro-Ministro Tayyip Erdoğan visitará o seu país, ao invés de ficar na Turquia para resolver a situação, que já fez mortos entre os nossos amigos. Isto nos mostra, infelizmente, que ignora todos os mortos e feridos, vítimas da força brutal da polícia que cumpre suas ordens. Esta carta é a nossa chamada, o nosso grito pedindo ajuda, para que se some ao nosso protesto protestando à chegada do primeiro-ministro à Tunísia.

Rogamos mostre que não estamos sozinhos. Mostre que os manifestantes pacíficos e democráticos sempre são vitoriosos, como vocês demonstraram ao mundo todo.

Em nome da paz, da liberdade e da liberdade de expressão!

Seus irmãos e irmãs da Turquia.

Ver em linha : http://nawaat.org/portail/2013/06/0...

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