Habitantes de Bahrein protagonizam o maior protesto anual contra o regime dos Khalifa

quarta-feira 21 de Agosto de 2013

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Fonte: Quarto poder.

Autora: MÓNICA G. PRIETO.

Data: 16 DE AGOSTO DE 2013.

As palavras-chave: Bahrein, Direitos humanos, Mobilizações sociais, Ativismo, Tamarrod Bahrein.

Eclipsada pelos dramáticos acontecimentos no Egito, Síria, Líbia ou Tunísia, a revolução popular mais desconhecida do mundo árabe tornou a desafiar o desinteresse internacional e saiu de novo às ruas, apesar da grande mobilização militar do regime que pressagia um desfecho violento.

Os ativistas do pequeno reino de Bahrein, que desde junho passado se fazem chamar Tamarrod Bahréin –Revolta Bahrein- tinham convocado para quarta-feira 14 de agosto – dia em que se comemora o 42º aniversário da independência do país do colonialismo britânico- uma grande manifestação perto da embaixada dos Estados Unidos, para reclamar reformas democráticas que entreguem o poder ao povo, e exigir respeito aos Direitos Humanos, um assunto não resolvido no pequeno arquipélago. Pouco depois de ser divulgada a data do grande protesto anual nas redes sociais, o regime aprovou um pacote de leis antiterroristas que ameaçam com duras sentenças de cadeia qualquer pessoa que promova a dissensão contra a família no poder, a revolução cidadã inclusive, y que diminuem ostensivamente as já minguadas liberdades de expressão e de movimento no reino árabe. A isso se soma um decreto real que proíbe qualquer manifestação na capital, Manama.

Longe de se atemorizarem, os ativistas continuaram levando adiante o seu plano de desobediência civil, que foi vazando aos poucos nas redes sociais, para minimizar a capacidade de bloqueio do regime, que fez tudo para impedir qualquer marcha de protesto. À véspera, as ONGs locais documentaram mobilizações de forças de Segurança em 70 pontos de Bahrein: muitas localidades, como Sitra, Budaya e Sanabis, amanheceram cercadas com arame farpado e blocos de cimento: para sair e entrar, os moradores eram obrigados a cruzar um posto de controle militar. Os ativistas também denunciaram o aumento do número de militares no hospital público Salmaniya, onde teriam sido instaladas câmeras de segurança para gravar as chapas dos veículos que transportassem feridos. Á tarde, informações de ONGs como o Centro Barenita dos Direitos Humanos denunciava que tinham sido lançados gases lacrimogêneos pelas forças de segurança contra a população, indistintamente, estivessem participando ou não das manifestações. Muitas famílias decidiram manifestar-se pacificamente do lado de fora de suas casas, ao ter sido impossível congregar-se nas ruas da capital.

As demandas dos manifestantes são as mesmas há décadas. Concretamente, em 14 de fevereiro de 2011, o povo de Bahrein sublevou-se contra o regime seguindo o exemplo de tunisianos e egípcios. No reino de Bahrein, a família do rei sunita Hamad bin Issa al Khalifa leva dois séculos no poder apoiada em um sistema policial que não duvida lançar mão das torturas e em um sistema político que lhes permite escolher a dedo boa parte dos representantes do povo nas instituições. Os Direitos Humanos são negados sistematicamente, denunciam ONGs locais e internacionais. As marchas pacíficas, com as quais a população, independentemente de sua seita religiosa, exigiu mais liberdades e direitos nos primeiros meses de 2011, foram respondidas com tiros. Nestes dois anos, perto de 80 pessoas morreram nos protestos.

As críticas internacionais às exações do regime foram mornas demais. Ninguém pediu moderação à família Khalifa, que acolhe no seu pequeno país a V Frota da Armada norte-americana e abriga tropas sauditas, cuja tarefa é reprimir a dissidência interna. Ninguém pediu que fizesse reformas democráticas, ou que promovesse a igualdade entre os seus cidadãos – a população muçulmana xiita, apesar de constituir quase 70% do total dos habitantes do reino, carece dos direitos da comunidade sunita – como ocorreu com outros ditadores regionais.

As relações do regime de Manama com Ocidente fizeram com que prosperasse a ficção do business as usual nos piores momentos inclusive, quando os médicos eram detidos e torturados por assistir manifestantes feridos; os blogueiros eram presos por exercerem o seu direito à liberdade de expressão; os abusos sexuais eram utilizados nos interrogatórios, ou as mesquitas xiitas eram arrasadas (38 em 2011) por ordens do regime em invasão predatória que aviva os ódios entre confissões em um contexto regional de guerra religiosa.

Durante 2012 e 2013, a repressão endureceu apesar de o regime tentar maquiar sua imagem utilizando para isso agências de relações públicas, ou promovendo acontecimentos como a realização da Fórmula 1, mas os ativistas não esmoreceram nas suas campanhas de denúncia. Apesar das detenções em massa, as exageradas sentenças de prisão ditadas contra defensores dos Direitos Humanos, os assaltos policiais a moradias de supostos opositores e os castigos coletivos contra populações xiitas consideradas conflituosas, os protestos continuaram se realizando e alguns derivaram no lançamento de coquetéis Molotov contra forças da segurança, confirmando os piores temores de muitos ativistas de Direitos Humanos como Nabil Rajab, hoje preso, que nesta entrevista admitia a decepção social diante do fracasso da revolução pacífica. Ele temia que o desapontamento do povo acabasse se traduzindo em ações violentas.

As instruções gerais dos ativistas na web bahrainaugust14.com - recurso inaugurado expressamente para informar do desdobramento da jornada e bloqueado pelas autoridades algumas horas depois – desaconselhavam qualquer confronto com as forças do regime.

Só o partido opositor Sociedade Islâmica Al Wefaq –que não participa oficialmente dos protestos, manifestava seu apoio ao direito de realizar manifestações pacíficas em explícito apoio à jornada - documentou 60 protestos em todo o reino de 700.000 habitantes. A mesma organização tinha denunciado que, desde que Tamarrod convocasse o protesto, no começo de julho, as forças do regime intensificaram a perseguição aos dissidentes, apesar do Ramadã: segundo seus dados, houve 648 assaltos de moradias, 208 detenções – entre os detidos havia 19 menores de idade -, 774 protestos e 400 casos de zonas submetidas a castigo coletivo. “Pelo que estamos ouvindo, haverá um protesto pacífico, porém, dizendo isso, também esperamos enfrentamentos entre manifestantes e forças de Segurança, isto porque estão contra qualquer protesto”, afirmou o líder de Wefaq, Seikh Ali Salman, em declarações a Reuters.

Os membros de Tamarrod publicaram carta aberta em 1º de agosto pedindo à embaixada norte-americana que proporcionasse proteção à marcha assumindo assim “as suas responsabilidades éticas” e explicando que o seu objetivo é conseguir “uma democracia verdadeira em Bahrein, não inferior às existentes em países ocidentais como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha”.

Com estes protestos querem recuperar certa imagem internacional, lesada pela estratégia do regime sunita cujos órgãos de propaganda descrevem os manifestantes como terroristas e acusam a República Islâmica do Irã de estar por trás dos movimentos dissidentes com o propósito de substituir a monarquia sunita, aliada estratégica da vizinha Arábia Saudita, por um regime xiita.

Ver em linha : http://www.cuartopoder.es/elfarodeo...

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