Por que o movimento dos desempregos lançou mão das ameaças?

segunda-feira 3 de Junho de 2013

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Fonte: Algeria Watch.

Autor: Yahia Bounouar.

Data: 29 de março de 2013.

As palavras-chave: Movimento de desempregados, Argélia, Violência, Direitos Humanos.

Após a semana de violência, Yahia Bououar, jornalista independente, que acompanha há mais de um ano o movimento dos desempregados, nos relata de dentro as causas e a evolução dos acontecimentos que levaram a Coordenaria subir a voz com as autoridades.

Quinta-Feira, 5 de julho de 2012. Junto com trinta companheiros oriundos de várias wilayas do país, Tahar Belabès, organiza um comício na Praça 1º de Maio em Argel. Apesar do impressionante e imponente aparato de segurança apostado nas ruas, os manifestantes conseguiram se instalar na praça e mantém seu sit-in (manifestação sentada) durante perto de uma hora. Mais tarde seriam processados e passariam o resto do dia em diferentes delegacias de polícia da capital. Este acontecimento marcaria o verdadeiro nascimento da Coordenadoria Nacional pela Defesa dos Direitos dos Desempregados (CNDDC por suas siglas em francês). Com efeito, até então a CNDDC funcionava como uma divisão do Sindicato Nacional Autônomo do Pessoal da Administração Pública (SNAPAP).

O comício de 05 de julho é a primeira ação organizada contra a opinião de SNAPAP. A situação se repetiria pela segunda vez em fevereiro de 2013. No final de janeiro, o sindicato e outras organizações decidem organizar um comício em frente ao Ministério do Trabalho. O protesto ocorreria em 25 de fevereiro, para evitar o dia 24, aniversário da nacionalização dos hidrocarbonetos, em 1971. Em seguida, Tahar Belabès anuncia em nome da CNDDC uma marcha entre Ouargla e Hassi Messaoud para o dia 24 de fevereiro. Ele sabe que se trata de um duplo desafio. O núcleo dos militantes muda de estratégia e de tática. Anteriormente se limitavam a comunicar-se através da Internet, ligar uns aos outros, conseguindo reunir algumas dezenas de membros. Desta feita, contudo, decidiram organizar-se.

Terreno

Realiza-se a primeira reunião, que cria um grupo incumbido de preparar a marcha: a segurança, a comunicação, a divulgação, a logística, etc. Paralelamente, organizam-se reuniões em cada bairro da cidade, os participantes designam um representante para as reuniões preparatórias. Convocam uma coleta de fundos e cada um dá o que pode; imprimem-se panfletos, compram-se coletes de proteção para os encarregados da segurança, criam-se os slogans e se preparam imediatamente as bandeiras os estandartes. Em 24 de fevereiro de 2013, a grande surpresa. Milhares de jovens marcham rumo a Hassi Messaoud. Seriam bloqueados com uma espécie de barreira fixa, na altura de 25 km, à saída da cidade. Os manifestantes se dispersariam calmamente, não houve nenhum vestígio de violência.

A CNDDC assume o desafio. No dia seguinte, em Argel, o comício em frente ao Ministério só reuniria, como de costume, duzentas ou trezentas pessoas. É óbvio que o êxito da marcha de 24 de fevereiro trará consigo sua dose de pressões, de ameaças e de intimidações. Tahar Belabès e o seu núcleo de militantes só sabem de que a resposta está no terreno. Impregnados da experiência de 24 de fevereiro, decidem lançar uma convocação para uma manifestação “Millioniya’, em 14 de março, na grande praça em frente ao APC, rebatizada simbolicamente “Praça Tahir”. Inquietos, alguns entraram em pânico, os dirigentes locais e nacionais, ao invés de conscientizar a raiva dos jovens e iniciar conversações, passariam às manobras. Os jovens foram acusados de separatistas, de serem manipulados por “mão estrangeira” e pelo eterno espantalho: “os islamitas”.

Propaganda

Sábado, 9 de março, um jornal em árabe, próximo do governo, chegou a acusar o líder do movimento Tahar Belabès de ter preparado o comício de 14 de março em Suíça, sabendo que este não tinha nem sequer passaporte. “Eles sabem disso, mas pouco lhes importa, a mentira será vista depois da mobilização, isto porque o objetivo era simplesmente entorpecê-la”. As coisas ocorreram exatamente assim, o desmentido se publicaria sexta-feira, 15 de março. Segunda-Feira, 11 de março, a televisão offshore organiza com os representantes locais e o Wali (governador), uma emissão ao vivo desde Ourgla, na presença de alguns jovens apresentados como dissidentes da CNDDC. Durante a emissão se anuncia a suspensão da manifestação.

Esta campanha de propaganda e de ataque teria efeito contrário e aumentaria o número de simpatizantes com os jovens da CNDDC e especialmente com Tahar Belabès. Resultado: em 14 de março, milhares de pessoas responderam à chamada dos desempregados. O comício foi um sucesso. A imprensa nacional e a internacional deram cobertura ao evento. No dia seguinte, durante uma visita a Bechar, uma cidade que fica no sul, o primeiro-ministro reconhece a legitimidade das reivindicações dos jovens de Ouargala. Com a virada, os comitês de wilaya da CNDDC se exaltam, em Ménéa, Adrar, Metlili, Djelfa, Médéa se multiplicam as manifestações. Em Laghouat, os jovens desempregados convocam um grande comício para 23 de março; os de El Oued para o dia 30; os de Batna para o dia 4 de abril.

Diálogo

Segunda-Feira, 18 de março, enquanto se aceleravam os preparativos para a manifestação de Laghouat, Tahar Belabès é chamado para uma reunião com altos funcionários, entre os quais se encontrava o Primeiro-Ministro. Não rechaçou o diálogo, mas respondeu que tinha de ser organizada e ele precisava falar com a base, formar uma delegação com representação nacional e elaborar uma plataforma de reivindicações. Enquanto isso, uns quarenta deputados enviados pelas autoridades organizam conferências nas wilayas. Os jovens expulsaram-nos de todas as partes e se cancelam as conferências: primeiro em Laghouat, depois em Ghardaïa, em Metlili e finalmente, em Ouargla. Os deputados cancelam as visitas. Em 23 de março, se realiza a segunda grande manifestação em Laghouat. Teve grande êxito e demonstrou a capacidade de organização dos jovens, de ocupar pacificamente o espaço público. Isto amedronta as autoridades. Contudo, quando os militantes esperavam que as autoridades iniciassem as conversações, seriam apanhados pelo auge de uma forte repressão. Em Ouargla, a polícia ataca violentamente uma manifestação pacífica de uns centos de desempregados. Em Ghardaïa, as manifestações acabam em confrontos e em 26 de março, 18 ativistas são detidos e espancados. Oito deles acabam na cadeia. Os “policiais” do regime empurram os jovens à violência. A CNDDC, que convocava ao diálogo nos seus comunicados anteriores, ergue a voz.

Dividir

Acusando as autoridades de “usarem a violência para desmoralizar um movimento que reivindica seus direitos pacificamente”, a CNDDC ameaça “sair às ruas em diferentes wilayas e a responsabilidade sobre possíveis incidentes seria exclusivamente das autoridades”. Tahar Belabes não consegue acreditar no que está vendo: “O regime usou todas as suas cartas contra nós, nos tachou de regionalistas, de separatistas, de atuar sob ordens estrangeiras e agora lança mão da violência. De repente, tento acalmar os meus companheiros, enquanto isso, os representantes do Estado empurram os jovens à violência. É inacreditável!

Em Ghardaïa, o regime trata de dividir os mozabites e os árabes, mas isso não vai funcionar. Depois do comício de El Oued, marcado para 30 de março, nos preparamos para uma “Millioniya” pacífica em Ghardaïa em solidariedade aos nossos camaradas detidos. Entre esses jovens, esses desempregados que nada têm a perder e que acabam de nos dar uma grande lição impregnando pacificamente as nossas lutas sociais e políticas de dignidade e de esplendor. Eles demonstraram ao regime que está totalmente ultrapassado, e não consegue reagir. Estamos diante de um confronto.

Ver em linha : http://www.algeria-watch.org/fr/art...

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